
Feiras criativas de São Paulo entram em uma zona de risco — e o impacto recai sobre o criativo paulistano
A ausência de regulação começa a comprometer o acesso, a permanência e o propósito de quem vive desse ecossistema
Beto Lago
As feiras criativas vêm se consolidando, ao longo dos últimos anos, como uma das expressões mais fortes da economia criativa e da ocupação cultural dos espaços urbanos no Brasil.
O termo “feiras criativas” nasce da prática — e como legado do Mundo Mix que foi o precursor do movimento — e foi como passei a nomear esse movimento a partir da minha atuação em Campinas, buscando dar forma a um setor que já existia, mas ainda não era reconhecido como tal. Em 2017, esse caminho ganhou respaldo com o Decreto Municipal nº 19.609, que regulamentou as feiras culturais e de economia criativa na cidade.
Mais do que eventos, essas feiras são territórios vivos de encontro, geração de renda e circulação de pequenos produtores, artistas, designers e criadores que movimentam a cidade com identidade, diversidade e inovação.
Esse movimento não nasceu de um único ponto, mas de muitas mãos e cabeças — coletivos, produtores, associações — e também de iniciativas do poder público que, em diferentes momentos, contribuíram para que essas ocupações se tornassem possíveis.
Nos últimos anos, especialmente após a pandemia, as feiras ganharam ainda mais relevância como estratégia de retomada econômica e reconexão social.

Um marco simbólico desse processo foi a realização da Feira das Feiras Criativas, no Memorial da América Latina, na capital paulista, reunindo 16 iniciativas em um mesmo espaço e se consolidando como o primeiro grande evento do setor no período pós-pandemia — um gesto coletivo que demonstrou a força, a organização e a capacidade de articulação da economia criativa.

Ao mesmo tempo, sua expansão trouxe novos desafios que precisam ser enfrentados com maturidade e cooperação.
Produzir uma feira é uma operação complexa e de alto custo: envolve infraestrutura, segurança, comunicação, limpeza, logística, taxas públicas, equipe técnica e programação cultural. É um trabalho que exige profissionalização, responsabilidade e investimento contínuo por parte dos organizadores.
Da mesma forma, os expositores — muitas vezes pequenos produtores — dependem desses espaços para sua subsistência e seu crescimento, o que torna fundamental que as condições de participação sejam justas, transparentes e sustentáveis.
Diante desse cenário, torna-se urgente avançar em uma regulamentação mais clara e consistente, que reconheça as feiras criativas como parte do patrimônio cultural e econômico de cada cidade, ao mesmo tempo em que ofereça segurança jurídica e operacional para todos os envolvidos.

Esse é um convite ao diálogo.
Um diálogo que envolva poder público, organizadores, expositores e a sociedade civil, na construção de diretrizes que equilibrem:
– Acesso democrático aos espaços públicos.
– Viabilidade econômica para quem produz.
– Oportunidades reais para quem expõe.
– Respeito à dinâmica urbana e aos territórios.
Alguns caminhos possíveis passam por:
– Critérios transparentes para autorização e operação.
– Modelos de taxação mais adequados à realidade da economia criativa.
– Estímulo a contrapartidas sociais e culturais.
– Boas práticas de convivência com moradores e comerciantes locais.
– Incentivo à profissionalização no setor.
Mais do que apontar divergências, este é o momento de alinhar interesses.
As feiras criativas são, por essência, espaços de colaboração. E é com esse mesmo espírito que precisam ser pensadas em sua relação com a cidade.
Unir forças é o único caminho possível para garantir que esses espaços continuem existindo, evoluindo e cumprindo seu papel cultural, social e econômico.
Beto Lago éfundador do Mercado Mundo Mix, pioneiro da economia criativa no Brasil.Presidente da Comunidade Criativa, primeira associação brasileira do setor, dedicada à articulação institucional, empreendedorismo criativo e ocupação cultural dos espaços urbanos.

