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Tipologias Ficcionais

Marcio Aquiles é escritor, crítico literário e teatral, autor dos livros Artefato Cognitivo nº 7√log5ie (Prêmio Biblioteca Digital 2021); A Cadeia Quântica dos Nefelibatas em Contraponto ao Labirinto Semântico dos Lotófagos do Sul; A Odisseia da Linguagem no Reino dos Mitos Semióticos; O Eclipse da Melancolia; O Esteticismo Niilista do Número Imaginário; entre outros. É um dos organizadores da obra Teatro de Grupo (Prêmio APCA 2021). Foi jornalista e crítico da Folha de S.Paulo, e desde 2014 trabalha como coordenador de projetos internacionais na SP Escola de Teatro. A coluna trará resenhas de espetáculos em cartaz na cidade e textos sobre literatura.

As antíteses na literatura de Rachel Cusk

Novo romance da autora britânico-canadense realça oposições tanto na narrativa quanto na construção das personagens

Por Marcio Aquiles

Em uma manhã em Paris, após uma aventura etílica com um escritor famoso e egocêntrico, a narradora M se depara com um autorretrato de L e é atingida por uma espécie de epifania. Quinze anos depois, morando com o marido numa região pantanosa, onde uma “Segunda Casa” –  que dá nome ao novo romance de Rachel Cusk – costuma de vez em quando abrigar hóspedes, decide convidar o pintor para uma temporada no local. Os motivos do convite não são misteriosos, mas tampouco evidentes, pois não é nítido se o que a motiva vem de uma admiração artística, um sentimento platônico ou de um profundo tédio existencial – seja com sua vida ou o casamento.

Inequívoca, contudo, é a contraposição explícita entre as duas personagens. Se M o convida para a serenidade do pântano, com suas “tempestades”, “o mar que às vezes fica rugindo” para depois cobrir “tudo com um lençol vítreo de água”, L recebe o convite do terraço de um restaurante de Malibu, protegendo os “olhos de um pôr do sol sanguinolento” que remete “a fogo eterno e enxofre”. Assim também pode ser definida a personalidade dos dois, profundamente antagônicas, como frio e calor, água e fogo.

M é insegura, tenta agradar a todo custo e vive preocupada com a opinião alheia. L, por sua vez, é pernóstico, arrogante e narcisista. Essas polarizações atravessam todo o enredo, e a relação com a filha Justine não escapa a elas: “Percebi, ao pensar nisso, que meu princípio primordial na criação da minha filha havia sido simplesmente fazer com ela o oposto do que tinham feito comigo”. Nem a com o marido: “Mas não é função de Tony trocar de lugar comigo, nem eu com ele. Somos pessoas diferentes, cada um tem um papel diferente a desempenhar”.

As desilusões da anfitriã começam ainda antes da chegada de L, ao receber um casual “decidi ir para outro lugar” do artista, tudo isso depois de ter feito uma faxina hercúlea no espaço. Quando finalmente vem, traz consigo, sem avisar antes, afeito que está a receber favores de aduladores, a amiga/amante Brett.

A partir daí, pode-se dizer tanto nada acontece quanto tudo acontece, pois “Segunda Casa” é um livro sobre nada e sobre tudo ao mesmo tempo, depende da perspectiva ou do ânimo do leitor no momento. Sem ter a informação de que toma por base as memórias de Mabel Dodge Luhan, que nos anos 1920 recebeu D.H. Lawrence em sua colônia de artistas no Novo México, pode-se ficar com aquela sensação incômoda: precisava mesmo um livro sobre isso? Ou, ao contrário, interpretar a dimensão metafísica daquelas relações como microcosmo humano tanto para temas nobres (amor, amizade, arte) quanto rasteiros (vergonha alheia, banalidades cotidianas). Pensando bem, talvez essa seja a tônica dominante na obra de Rachel Cusk desde “Esboço” (2014). Sem os artifícios de reviravoltas inesperadas ou acontecimentos extraordinários, a autora consegue extrair, com naturalidade e sem forçar a mão nos dispositivos narrativos, a seiva literária do trivial.

@marcioaquiles

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