Rua Gravataí, Consolação, bairro central de São Paulo
Conheça a origem do nome da Rua Gravataí, onde deve ser construído um boulevard de ligação entre a Praça Roosevelt e o Parque Augusta
Vera Lucia Dias
(“caraguatá” ou “gravatá” planta bromeliácea e “y” água/ líquido = rio dos gravatás)
No Projeto Boulevard Augusta, em andamento, aguardamos presença da bromélia gravatá, a planta. Essa obra fará a ligação entre o Parque Augusta e a Praça Roosevelt com via compartilhada entre pedestres e veículos.
O nome desta rua, em São Paulo, é uma homenagem a um município com o mesmo nome no Rio Grande do Sul, segundo consta no Dicionário de Ruas da Prefeitura de São Paulo. Lá a explicação de que Gravataí, fundada em 1763, recebeu essa denominação porque havia gravatás em abundância na região.
Se em 1762 o Capitão Antônio Pinto de Carneiro trouxera cerca de mil índios Guarani dando início ao povoado, onde estarão os remanescentes na atualidade?
Resposta: em lutas, nas retomadas de terras e composto por grupos bastante vulneráveis valorizando sobretudo a espiritualidade e a preservação da natureza. Hoje, são cerca de 4 mil em todo o Estado. Entre lutas nem sempre perderam: em 1641 cerca de 4 mil guaranis travaram batalhas contra 6 mil homens e bandeirantes chefiados por Raposo Tavares. Deu-se uma vitória Guarani.
Por esse gigante país, percorrendo trilhas do Atlântico ao Pacífico, indígenas circulavam pelo Caminho do Peabirú desde o século 16, do Litoral ao Sertão, cortando o planalto de Piratininga que significa “peixes secos” e hoje se chama São Paulo, na região onde hoje é a Consolação seguindo Pinheiros adiante.
A área do Parque Augusta que nessa ligação fará conexão com a Praça Roosevelt, além de ser hoje de real importância para o Centro de São Paulo, abrigou em outras décadas o Colégio Des Oiseaux da elite paulistana de 1907 a 1969, o Colégio Santa Mônica e o Ginásio de Aplicação da Faculdade de Filosofia Sedes Sapientiae, onde estudaram as meninas pobres de 1962 a 1967. Hoje em área contígua ao Parque encontra-se a Faculdade de Psicologia da PUC, onde são priorizadas áreas de estudos em Saúde e Educação.
Aqui faço um paralelo das experiências que vivi nessa geografia de tantas palavras indígenas, das águas e de plantas. Nascida em 1951 no bairro da Mooca, que significa em tupi “fazer casa”, logo fui levada ao município de Itu, que quer dizer “salto/cachoeira”, onde residi de 1955 a 1958.
Em idade escolar fui transferida pela família até a Vila Nova Cachoeirinha, num breve período em que realmente tomávamos banho na pequena cascata entre pedras, a legítima cachoeirinha. Nos anos de 1959 a 1961 me encontro ao lado das águas da Represa Billings no Jardim Pedreira.
De 1962 a 1966, mais mudança em busca de escolaridade e residindo com a família Monteiro de Barros na Rua Itapirapuã, que quer dizer “pedra redonda elevada”, no Jardim Paulistano. De lá diariamente seguia para o Ginásio de Aplicação, onde hoje é o Parque Augusta, subindo e descendo com ônibus elétrico pela Rua Augusta. E durante alguns meses na Rua Praia de Mucuripe, que quer dizer “rio dos mucurís” (a planta mucurí) no Jardim Nordeste.
Em 1971, moradia na Baixada do Glicério, ao lado do rio Tamanduateí “rio de tamanduás”, que transbordava nos meses de cheias de dezembro a março e onde chegamos a ver a água subindo até 2 metros na região.
Com o filho em 1979 na região da Consolação. Lá constatamos que circula submerso o rio Anhanguera, “diabo velho”. Depois para o “caminho de tatus”, que é o Tatuapé, fomos morar de 1986 a 1988 na rua Serra de Botucatu, a “serra boa ou bons ares”.
Nos anos de 2012, por 10 anos em Sapopemba, “raiz achatada/pra fora” e atualmente na rua Acaraú “rio dos peixes akaras”, na Bela Vista.
Resumo esse viver cercado por vivência em com casas e seus quintais de terra, água de poço, fogão a lenha, olarias e depois em prédios, passando por famílias e pessoas afetuosas que me abrigaram, me ensinaram. Observo tudo isso contribuir para a atividade que exerço como guia da cidade há 28 anos. No Centro ou na periferia, noto riachos e rios sem placas de identificação, e mesmo os aterrados me instigam a pesquisar e pensar a cidade atual.
Segue esse texto que comentei com o professor Samuel, a pessoa que assinou com outros participantes um pedido ao Departamento do Patrimônio Histórico para tombamento da área do Parque Augusta em 20/06/1994. Um recente encontro na rua Marques de Paranaguá nos aproximou e assim me sugeriu contar fatos. Acredito que talvez possamos inspirar outras narrativas também.
Fontes:
ISSA. Daniel. O Peabirú: Uma trilha Indígena Cruzando São Paulo
MACHADO, Almires. Martins e IVARRA ORTIZ, Rosalvo. “Na Estrada da terra sem mal”. Guarani: História, memória e cosmologia. UFGD
Marcos do Pampa
NAVARRO, Eduardo de Almeida. Dicionário de Tupi Antigo. Global. 2013
http//passeiopaulistano.blogspot.com
Samuel Kilsztajn, Graduado USP. Mestre e Doutor Unicamp.
Sul21.com.br
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