Blog da Denize Bacoccina

Denize Bacoccina é jornalista e especialista em Relações Internacionais. Foi repórter e editora de Economia e correspondente em Londres e Washington. Cofundadora do projeto A Vida no Centro, mora no Centro de São Paulo. Aqui é o espaço para discutir a cidade e como vivemos nela.

Por que não queremos a privatização da Praça Roosevelt

Desastre da concessão do Anhangabaú alerta para o risco de privatização dos espaços públicos

Denize Bacoccina

Quando ouço falar em “concessão da Praça Roosevelt”, imediatamente me vem à mente o Vale do Anhangabaú e o desastre que se tornou o que deveria ser “a grande praça cívica de São Paulo”, como me disse em entrevista o arquiteto brasileiro que participou do detalhamento do projeto da última reforma, cuja ideia inicial foi do famoso arquiteto dinamarquês Jan Gehl, conhecido por defender uma “cidade para as pessoas”. Concluída a reforma que em tese traria mais acessibilidade e transformaria o local um destino de permanência, em vez de passagem, a praça cívica se tornou uma arena privada, cujos shows de madrugada incomodam moradores da região e é frequentemente cercada por tapumes que tornam o local inacessível para quem quer atravessar e perigosa para quem está do lado de fora das barreiras. O grande conector do Centro Histórico com a região da República tornou-se um obstáculo e um espaço privado. Pessoas já foram impedidas até de tirar fotos no local. Aliás, o mesmo acontece no Parque do Ibirapuera, onde a empresa que administra o local proíbe usos espontâneos e cobra por atividades, mas não assume a responsabilidade quando frequentadores reclamam da segurança.

No início de junho, a Prefeitura de São Paulo publicou o edital de concessão, por 20 anos, do que chamaram de Complexo Roosevelt. Além da praça (com exceção dos espaços ocupados pela PM e pela GCM), integram o pacote pronto para ser entregue a empresas privadas a Rua Gravataí (que liga a praça ao Parque Augusta), o mirante do outro lado da Rua Augusta (“mirando” o Minhocão no lado que vai para a zona leste), o estacionamento abaixo da praça, atualmente fechado, e ainda a via embaixo da praça, onde nos últimos meses se instalou uma minicracolândia.

Praça Roosevelt em 2018, com o pergolado em bom estado e o café funcionando

O documento prevê um investimento inicial de R$ 2,96 milhões para um contrato estimado em R$ 55 milhões nos 20 anos de operação, uma receita anual de R$ 4,6 milhões. Os recursos viriam do uso comercial do espaço. Estão previstos a realização de dois eventos mensais e a obrigação de oferecer 36 atividades de interesse coletivo, mas sem especificação de que sejam gratuitas.

O edital prevê ainda a possibilidade de naming rights, ou seja, rebatizar a praça com o nome de uma empresa – lembram do Largo da Batata, que só escapou de virar “Largo da Batata Ruffles” por que o projeto vazou e teve ampla rejeição da população? Pois é. O risco está sempre por aí. Há muito tempo a Praça Roosevelt muito deixou de representar uma homenagem ao ex-presidente americano para se tornar um nome presente na memória de várias gerações de paulistanos. Dos frequentadores dos bares de bossa nova nos anos 1960 aos skatistas que mantiveram a praça viva durante o período de maior degradação da região à diversidade de público no momento atual. Praça Roosevelt é mais do que um nome, é um local afetivo no Centro de São Paulo. O espaço é tão representativo que é um dos mais utilizados em filmagens tanto de obras artísticas quanto de publicidade, atividade que é gerenciada pela SPCine.

De todos os itens do edital, o único que traria benefícios aos moradores e especialmente aos frequentadores é a reabertura do estacionamento sob a praça, fechado há vários anos e atualmente usado apenas por alguns veículos da CET. Para isso não é preciso privatizar a praça. É possível conceder o estacionamento e manter a praça sob gestão pública.

Qual é o problema da privatização do espaço público?

O que eu, como moradora da Praça Roosevelt desde 2017, temo com essa privatização? Que as atividades espontâneas que hoje são realizadas ali – de aulas gratuitas de Tai Chi dadas por uma moradora a ensaios de grupos de dança ou teatro, passando por feirinhas de artesanatos e manifestações públicas de pequeno porte – sejam proibidas, ao mesmo tempo que a empresa poderia autorizar eventos de grande porte, patrocinados por grupos que podem pagar por eles. A julgar pelo modelo de operação do Anhangabaú, a troca pode ser devastadora. De atividades culturais e de lazer de baixo impacto e que geram convivência entra as pessoas para atividades pagas, que geram incômodo, ruído e exclusão.

A praça deixaria de ser um espaço de convivência para se tornar uma operação comercial. Não sou contra operações comerciais. Shows pagos e locais de comercialização de produtos, grandes eventos, também têm seu lugar. Mas este lugar não deve ser um espaço público. São Paulo tem inúmeros shopping centers e casas de shows.

Como é morar na Roosevelt?

Muitas pessoas, quando ficam sabendo que moro na Praça Roosevelt, perguntam se o local não é barulhento. Não, não é. Em muitos momentos a praça fica cheia de pessoas, conversando, andando de skate, patins, bicicleta, levando seus cachorros pra passear. Mas o som das pessoas conversando não sobe até os prédios. Ter gente circulando na praça e nas calçadas traz não um incômodo, mas uma sensação de segurança. É você poder chegar em casa à noite e não ter medo da rua escura, como acontece em muitos lugares sem vida noturna.

Falta de segurança sentimos quando a Prefeitura fecha a praça, em dias de grandes eventos na cidade, como o Carnaval ou a Parada do Orgulho LGBT+, para evitar que a praça seja frequentada após esses eventos. Ou seja, quando há mais pessoas circulando pelo Centro a praça fica fechada, obrigando as pessoas a andar pela rua. Isso sim, incomoda. As ruas ficam ocupadas pelas pessoas, enquanto a praça fica vazia, cercada de tapumes. Já nos manifestamos inúmeras vezes contra esses fechamentos, sem acolhida.

Praça Roosevelt no Carnaval de 2026: fechada, impedindo o acesso de moradores ou frequentadores
Carnaval de 2024: praça vazia e cercada e multidão do lado de fora na chegada de bloco de Carnaval

Como está a conservação da praça?

A Praça Roosevelt de fato precisa de manutenção. Moradores, representados pelo Coletivo Ocupa Roosevelt, vem há anos demandando obras de manutenção e reformas. O piso está irregular, o que acumula poças em dias de chuvas, o pergolado está correndo de risco de cair e o espaço foi cercado para evitar que as pessoas passem por baixo, os quiosques que entre 2016 e 2020 abrigavam um café e eram um ponto de encontro das pessoas da região estão abandonados, o cachorródromo está em local inadequado, assim como a área de brinquedos para crianças. A Subprefeitura da Sé já prometeu reformas, e desde o ano passado tem até um orçamento reservado para elas, mas nada foi feito. Por outro lado, em 2023 gastou-se R$ 4,3 milhões de reais na realização de um “mirante” do outro lado da rua, que não é utilizado por ninguém.

Praça Roosevelt em junho de 2026: pergolado em péssimo estado e cercado para evitar acidentes
Praça Roosevelt em junho de 2026: quiosques destruídos
Poças d´água se formam no piso irregular
Poças d´água no chão irregular

A impressão que temos é que se trata daquele tradicional “deixa piorar pra depois privatizar”. Ou seja, o poder público se eximindo do seu dever de cuidar dos espaços públicos e de garantir que eles sejam de fato públicos e acessíveis para todas as pessoas.

O que podemos fazer?

O edital está em consulta pública e é possível participar da audiência pública no dia 17 de junho, às 10h, por meio deste link.

O Coletivo Ocupa Roosevelt também está realizando reuniões abertas para discutir o assunto. A primeira acontece neste sábado, às 16h, na Praça Roosevelt, e é aberta a todos os interessados. Quem também não concorda com a privatização dos espaços públicos está convidado a participar e juntar forças na cobrança de uma cidade aberta e para todos.