O arquiteto florentino que ajudou a construir São Paulo e que quase ninguém conhece
Caminhada gratuita dá continuidade à série de percursos que vem revelando personagens pouco conhecidos e novas formas de olhar para a história do Centro de São Paulo
Wans Spiess
Nos últimos meses, centenas de pessoas ocuparam as ruas do Centro para revisitar histórias que pareciam esquecidas. Primeiro, a caminhada sobre a formação da cidade revelou um desejo coletivo de reencontro com São Paulo. Depois, a trajetória de Miss Cyclone mostrou como personagens quase apagados da memória urbana ainda são capazes de despertar curiosidade, afeto e pertencimento.
No próximo dia 27 de junho, o projeto Ruas & Histórias propõe mais um mergulho em uma dessas camadas invisíveis da cidade.
Desta vez, o personagem é Giulio Micheli.
Nascido em Florença, em 1862, filho do arquiteto Vincenzo Micheli, ligado à tradicional Academia de Belas Artes de Florença, Giulio chegou a São Paulo em 1888, justamente quando a capital iniciava uma das maiores transformações de sua história.
Impulsionada pela riqueza do café, pela imigração europeia e pela consolidação da República, a cidade deixava para trás sua escala provinciana e começava a construir a imagem da metrópole moderna que conhecemos hoje. Foi nesse contexto que Micheli passou a atuar.
Seu nome raramente aparece nos livros escolares ou nas narrativas mais conhecidas sobre São Paulo. No entanto, sua obra permanece espalhada pela cidade, presente em edifícios, igrejas, bancos, pontes e espaços urbanos que milhares de pessoas atravessam diariamente sem perceber.
Mais do que projetar edifícios isolados, Micheli participou da construção da própria imagem urbana da São Paulo republicana. Entre suas obras estão a Igreja de Santa Cecília, a Casa Lombarda, o antigo Banco Francês e Italiano, o Edifício Cotonifício Paulista, sua participação nas obras da Santa Casa de Misericórdia e intervenções ligadas ao Viaduto Santa Ifigênia, além de diversos projetos que ajudaram a redefinir a paisagem paulistana entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.
Sua arquitetura traz referências da tradição italiana, inspirada nos grandes palácios florentinos, mas adaptada às necessidades de uma cidade que crescia rapidamente e buscava construir sua própria identidade.
A caminhada pretende observar as marcas desse período de transformação ainda presentes na paisagem urbana e compreender como arquitetura, imigração, desenvolvimento econômico e vida cotidiana se entrelaçaram na construção da cidade.
O percurso parte do Pátio do Colégio e segue pelo Centro Histórico, passando por locais que ajudam a compreender essa passagem da cidade de taipa para a cidade dos viadutos, dos bondes, dos bancos, dos edifícios monumentais e da vida urbana moderna.
Como já virou característica do Ruas & Histórias, a experiência combina pesquisa histórica, observação da paisagem, memória urbana e algumas surpresas preparadas especialmente para o percurso.
Estamos definindo esse processo como uma forma de “urbanografia”: uma leitura da cidade feita a partir da experiência direta do caminhar. Em vez de apenas ouvir sobre a história, os participantes são convidados a percebê-la no espaço, observando detalhes arquitetônicos, relações urbanas e vestígios que normalmente passam despercebidos na correria do dia a dia.
Talvez seja justamente esse o segredo do sucesso das nossas caminhadas: descobrir que São Paulo ainda guarda muitas histórias escondidas à vista de todos.

Serviço
Ruas & Histórias #5 — Giulio Micheli: Um Florentino que ajudou a desenhar São Paulo
Sábado, 27 de junho
Encontro: Pátio do Colégio
Concentração às 9h30
Saída às 10h
Gratuito
Não é necessário fazer inscrição prévia.

