Miss Cyclone e o desejo de ocupar as ruas de São Paulo outra vez
Caminhada gratuita no Centro revive os anos 1920 e mostra como histórias urbanas têm reunido cada vez mais pessoas no espaço público
Wans Spiess
No próximo sábado, dia 30 de maio, o Centro de São Paulo recebe mais uma edição das caminhadas Ruas & Histórias. Desta vez, mergulhando nos anos 1920, entre modernismo, boemia, amores controversos e os primeiros sinais de uma cidade que começava a experimentar os ventos da modernidade.
Quem foi Miss Cyclone?
A caminhada revive a trajetória de Maria de Lourdes Castro Pontes, jovem que inspirou a personagem Miss Cyclone e que ficou conhecida por sua relação com Oswald de Andrade.
Sua história mistura romance e tragédia em uma cidade que começava a descobrir automóveis, cafés, cinemas, salões e novos modos de viver. Muito do que sabemos hoje sobre esse universo foi reconstruído pelo escritor José Roberto Walker no livro Neve na Manhã de São Paulo, que resgata documentos, memórias e pistas desse período anterior à Semana de Arte Moderna de 1922.
Durante a caminhada, vamos percorrer ruas, edifícios e cenários que ainda guardam ecos daquela São Paulo do início do século XX – uma cidade provinciana e moderna ao mesmo tempo.
Uma caminhada construída coletivamente
A proposta é mobilizar pessoas diferentes em torno de uma ideia comum: valorizar a cidade.
Visitaremos locais ligados a Oswald de Andrade, como o atual prédio da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo – antigo Colégio Caetano de Campos, onde estudou. E terminaremos próximos ao edifício da antiga garçonnière, hoje ocupado por escritórios e serviços, mas que ainda carrega vestígios simbólicos daquele período.
O escritor José Roberto Walker estará presente contando a história de Miss Cyclone e também faremos a leitura de trechos do Diário da Garçonnière, obra rara pertencente a Antonio Levi, publicação que revela o cotidiano boêmio e intelectual daquele grupo modernista.
Também estamos convidando os participantes a irem caracterizados com roupas inspiradas nos anos 1920 – eu mesma já preparei o meu look.
No encerramento, teremos um pocket show em frente ao tradicional Bar Guanabara, aberto desde 1910 no Vale do Anhangabaú.
Tudo isso reforça algo que temos percebido cada vez mais: existe uma rede de pessoas interessadas em viver o Centro com mais afeto, curiosidade e presença. Parceiros que abrem portas, emprestam estruturas, compartilham conhecimento e ajudam a transformar memória em experiência coletiva.
E, assim, o passado nos ajuda a criar novas relações com a cidade no presente.
Um movimento que nasceu das ruas – e da internet
O mais interessante não é apenas a história de Miss Cyclone, mas o que vem acontecendo ao redor dessas caminhadas.
Nos últimos meses, temos visto pessoas saindo de casa para caminhar juntas, ouvir histórias, ocupar o espaço público e olhar para São Paulo com mais curiosidade e presença. Tudo isso sem grandes estruturas, sem catracas, sem patrocínios milionários ou campanhas publicitárias. Apenas movidas pelo desejo de viver a cidade de outra forma.
A ideia das caminhadas Ruas & Histórias nasceu justamente dessa vontade de transformar em encontro real aquilo que começou na internet. Lincoln Paiva, através do trabalho desenvolvido no @area.central.sp, já reunia uma enorme comunidade interessada na história de São Paulo. Eu, por minha vez, pesquiso o caminhar como ferramenta de escuta, presença e leitura da cidade no QuerCaminharComigo?.
Como amigos, percebemos que esses caminhos podiam se juntar para criar algo em que acreditamos profundamente.
E o que era apenas uma proposta de caminhada virou movimento.
Hoje, as caminhadas gratuitas realizadas no último sábado de cada mês vêm reunindo centenas de pessoas no Centro Histórico. Experiências coletivas de memória, descoberta e convivência, que mostram que ainda existe interesse pelo patrimônio, pela cultura urbana e pelas histórias escondidas atrás das fachadas apressadas da cidade.
Caminhar muda a forma como vemos São Paulo
Existe algo de poderoso em ouvir histórias exatamente no lugar onde elas aconteceram.
Quando caminhamos juntos, o Centro deixa de ser apenas passagem. Volta a ser cenário de encontros, descobertas e conversas. Um espaço onde as pessoas param, observam detalhes, fazem perguntas e percebem que a cidade é muito mais complexa – e mais humana – do que normalmente imaginamos.
E, depois da primeira caminhada, dificilmente alguém olha para São Paulo da mesma forma.
Serviço – Caminhada Miss Cyclone
Caminhada Miss Cyclone
30 de maio (sábado)
Concentração a partir das 9h
Praça da República – em frente ao Caetano de Campos
Acesso pelo Metrô República (linhas Vermelha e Amarela)
Caminhada gratuita
Não precisa de inscrição prévia
Apoio cultural: Bar Guanabara
Para acompanhar as próximas caminhadas, entre na comunidade Ruas & Histórias pelo link na bio do meu perfil no Instagram @wansspiess
E venha descobrir São Paulo de um jeito que talvez você ainda não tenha visto.
QuerCaminharComigo?

